quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"O osso da borboleta", de Rui Cardoso Martins














O osso da borboleta, Rui Cardoso Martins, Tinta da China, 2014



A beleza é o tema principal do mais recente livro de Rui Cardoso Martins, O osso da borboleta. O autor parte da beleza como atributo feminino para chegar à beleza como atributo da humanidade, percorrendo um desconcertante caminho literário que não nos deixa indiferentes.

Num mundo pleno de fealdade, a beleza da personagem principal, a Purificação, tanto como a beleza da ex-companheira de Paulo, uma personagem que aparece de relance, está inevitavelmente associada a um jogo mais de azar do que de sorte, reflectido na imoral relação presa-predador (a moralidade não mora na natureza das coisas), quase sempre convidando a uma fornicação que morde porque tem dentes como os da lampreia. E quem não morde é mordido. São as leis da natureza (e a moralidade, já se disse, não mora na natureza das coisas). Vai-se a beleza, por inevitável envelhecimento ou por estranha fuga, e a vida inflecte sobre o passado. Para os náufragos de sofá e de sótão, “nada é tão imprevisível como o passado”. Um passado que se faz presente e lhes troca os tempos.

Num arrojamento ficcional despudorado, onde o passional é apenas interrompido (ou talvez fortalecido) por considerações sobre as coisas do mundo, por qualquer (des)propósito sempre reflectidas num ecossistema de sótão, Rui Cardoso Martins empurra-nos, sem nos dar fôlego, para uma outra dimensão da beleza, a beleza pública, revelada no final do último capítulo, nas últimas linhas do romance. Um simples gesto, talvez o mais simples de todos os gestos humanos, encerra o romance. O cumprimento da essência humana através desse simples gesto desarma-nos e faz-nos ganhar o mundo. Sairemos vivos desta fábula política porque, também aqui, a beleza foi servida fria.

Fernanda Cunha/janeiro2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sono de Inverno, um filme político














Título Original: Kis uykusu
De: Nuri Bilge Ceylan
Com: Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag
Drama, cor, 196 min, idioma turco, 2014
Estúdio: NBC Film, Bredok Filmproduction, Memento Films Production, Zeynofilm
Distinguido com a Palma de Ouro no 67.º Festival de Cannes



Sono de Inverno, o filme de Nuri Bilge Ceylan, ouve-se, vê-se, cheira-se, apalpa-se, saboreia-se. Os cinco sentidos estimulados. Três horas e quase meia, no compasso da sonata para piano de Schubert. O tempo real desaparece dos nossos sensores e mergulhamos inteiros nas vidas das personagens. Truque da fotografia, astúcia do som, inteligência dos diálogos. 
Em cena, os desencontros entre marido e mulher, irmão e irmã, senhorio e inquilino, na liberdade, na literacia, na fé e no amor. Anti-heróis das suas próprias vidas, encapsuladas no tempo e no isolamento, as personagens reflectem uma Turquia extrema, igual, afinal de contas, a tantos outros lugares. 
Tal como acontece nas sonatas, onde a ausência do canto nos liberta, também aqui a ausência de um pré-conceito do autor em relação aos temas que nos oferece, concede-nos a liberdade de juízo sobre a nossa própria condição humana. Sublime!

fc/janeiro2015