sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O país, a ilha e os lugares











(Artigo publicado no jornal Costa a Costa, no dia 17 de Outubro de 2011)

1.
Em cena a mais recente adaptação do clássico Moby Dik, muito aplaudida pelos grandes da praça mundial. Chama-se Moody’s Dick e conta a história da pequena jangada chamada Portugal. A história inicia-se com o cumprimento da profecia de Saramago em A Jangada de pedra, para depois seguir o enredo dramático de Herman Melville, o autor de Moby Dik.
A jangada Portugal, tal como o navio Pequod em Moby Dik, distancia-se do seu porto seguro (?), a velha Europa, e faz-se ao mar, por um período de três anos, com um objectivo - a caça à baleia. Esta actividade, em que somos especialistas, visa ganhar o dinheiro suficiente para podermos atracar novamente à Europa. As gorduras e o espermacete das baleias rendem o dinheiro necessário para reconstruir os alicerces da autofágica Europa, esclerosada pela ganância da velha Alemanha.  
Mas lá longe, depois de todo o oceano, está Moody’s Dick, gigante besta, de cor indeterminada, imoral e quase criminosa, que não esperou muito tempo para abanar a sua cauda e provocar uma espécie de tsunami sobre a pequena e fragilizada jangada. Espalhou o espermacete e inundou o convés de Portugal. Afogados no líquido da baleia, os tripulantes da jangada afogam-se, asfixiam-se, falta-lhes o ar. A Moody’s Dick, terror dos mares e das terras, especialmente as mediterrânicas, apareceu para matar.
Os velhos alicerces da Europa abanam. Portugal é puxado pelas correntes do desastre. Mesmo em direcção à boca gigante de Moody’s Dick, que anseia por lixo. LIXO, LIXO, LIXO. Moody’s Dick pretende engolir Portugal inteirinho e ficar a arrotar electricidade e água em privado.
Cumprida a profecia de Saramago, o autor português, cumprir-se-á a de Melville, o autor americano? Sobreviverão os portugueses à Moody’s americana?
2.
Não é conto de fadas, conto de encantamento, fábula ou lenda esta história que vos quero contar. É tão-somente uma dúvida que me invade sobre uma mala fechada de uma espécie de rei que indo nu, traja ricamente. 
O que terá a mala do Rei? Peúgas reais? Pois se ele traja ricamente… Tesouros imperiais do pequeno Arquipélago? Os medos do povo? As fragilidades de outros? O quê? O que terá a mala que ele escondeu com mil cuidados e que agora ostenta como se de um ceptro se tratasse. Em legítima defesa, segundo diz.
Uma mala e um rei. Que não se confunda com aquele outro rei, D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, de quem Eça de Queiroz falou, nas Farpas de Fevereiro de 1872. A inseparável mala do Príncipe Imperante de Eça acompanhava o dono sempre que este saía do Brasil. A mala era uma insígnia, um substituto do ceptro, um sinal de democracia, que trazia consigo quando se deslocava ao continente europeu. “Não me confundam com Ele, a Sua Majestade. Tratem-me por Pedro.”, dizia.  Perante o cerimonial europeu na recepção de tão elevada figura, D. Pedro empunhava a mala e, se necessário fosse, mostraria as chinelas de mouro. A mala significava que trazia na mão não o ceptro mas a sua própria bagagem, tal como todos os homens simples. Era um homem para o povo, um bom homem. A pequena mala estava vazia. Sua Majestade não a usava como bagagem, punha-a como disfarce, um símbolo. Não mais que isso. Ficou a lenda.
Agora o rei fanfarrão. Outra mala, outro rei. Que traz ele na mala? Não é uma mala vazia, o símbolo da simplicidade de D. Pedro. É, antes, uma mala com o Vazio. O Vazio colossal com que brindou todo o povo português. Um vazio incontinente que chega a todos. Este rei dos Atlânticos veste-se como Carmen Miranda para dançar com o povo e gosta de ostentar o charuto cubano quando discursa boçalidade. O rei vai nu mas traja ricamente. Da mala agora aberta não ficará a lenda.
3.
Iniciaram-se as Olimpíadas Verdes, uma competição entre lugares nunca vista anteriormente em Portugal. A competição olímpica decorre até 2012 e a corrida promete ser renhida. Serve para entreter os agitados mercados e, simultaneamente, organizar o território português. As regras do jogo foram publicadas no Documento Verde, nome assim atribuído pelo seu autor Relvas.
A dimensão política da corrida está afirmada pelo Memorando da Troika e pelas directrizes claras do Governo português, sendo a palavra de ordem: redução do número de freguesias e municípios. Resta ao poder local entrar na corrida pela não extinção, ou seja, cada uma das freguesias ou municípios alegar ser maior e melhor que a vizinha ou vizinho. Os vencedores terão como prémio administrar os lugares perdedores.
Os deuses gregos, desalojados por falta de pagamento da varanda celestial de onde habitualmente espreitam os Jogos Olímpicos, foram substituídos pela Santíssima Troika, juíza atenta à grande competição autárquica. Esta mudança de divindades faz suspeitar uma possível substituição da democracia, cujo berço se localiza precisamente na Antiga Grécia, pela ditadura económica, uma coisa do Novo Mundo.
As regras estão definidas. Que comece a corrida!

Fernanda Cunha/ 03Out2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

De Garvão ao mundo...









Garvão é uma povoação muito antiga. A sua história estende-se até à Idade do Bronze (séc. II a.C.), muito para lá da oralidade possível, testemunhada apenas pelos vestígios arqueológicos recuperados do Cerro do Castelo, por isso mesmo reconhecido, por decreto,  como imóvel de interesse público. As ribeiras de Garvão e Pimentas, que alimentam um rio maior, o Sado, provavelmente importantes vias de comunicação entre o litoral e o interior, e a fértil várzea, terão sido razão suficiente para ali se fixar e desenvolver um povoado. Um povo particular, dono de uma espiritualidade própria, a julgar pelo depósito votivo encontrado, que sugere a existência de um santuário perpetuado no tempo. São exemplos as inúmeras placas oculadas em ouro e prata, que apontam para o culto de uma divindade com poderes profilácticos nas doenças de olhos.  A importância do lugar deu continuidade à sua ocupação ao longo dos tempos. Aqui se reconhecem vestígios da presença celta, romana e árabe. Ao topo da colina que recebeu os primeiros núcleos populacionais, tomemos a liberdade literária de lhe chamar primeira cintura.

Durante a Idade Média, o povoado cresceu para fora das muralhas do Cerro do Castelo. Este núcleo habitacional ganhou importância com o reconhecimento religioso e político, enquanto priorado e comenda da Ordem de Santiago. Obteve o primeiro foral em 1267, através do Mestre D. Paio Peres Correia, e o segundo foral em 1512, através de D. Manuel I. A Igreja Matriz de Garvão, dedicada à Nossa Senhora da Assunção e com assinatura manuelina, encabeçava a paróquia tutelada pelo Arcebispo de Évora, da qual também faziam parte as ermidas Espírito Santo, São Pedro e São Sebastião. A Casa da Misericórdia e o Hospital cobriam as necessidades sociais e de saúde da população. Garvão, sede de concelho, administrava também a freguesia de Santa Luzia. Tinha um alcaide, vereadores, escrivães e tabeliães. A importância exterior da vila traduzia-se pela sua representação nas cortes de Portugal através de um procurador. Também no campo da justiça, Garvão estava apetrechado com dois juízes ordinários e um juiz de órfãos. Militarmente, foi sede de uma Companhia de Ordenança. Nesses tempos, Garvão, que se organizava economicamente em torno da produção de mel, trigo, pão, gado, carne de porco e caça, cresceu até à margem esquerda da ribeira de Garvão. Chamemos-lhe a segunda cintura.   

Em 1888 é inaugurada uma nova estação do caminho-de-ferro que liga Casével e Amoreiras (Linha do Sul): a Estação de Garvão. Localizada a 500m para oeste do Cerro do Castelo, fez nascer a área industrial, composta por fábricas de moagem e de cortiça, com impacto na economia da região. A pequena industria artesanal teve também lugar: sapateiros, latoeiros, ferreiros, albardeiros, etc. O casario expandiu-se a partir da estação e a população instalou-se. Em 1911, na sequência da construção da Linha do Sado, Garvão ganhou uma segunda estação ferroviária, localizada 2 km a norte da vila. Uma nova população veio reforçar os censos. Com duas estações, Garvão ganhou fôlego e superou de um período de asfixia agrícola e perda da concelhia para Ourique, em consequência da reforma administrativa de Mouzinho da Silveira (1836). A vila expandiu-se para o vale, de fronte para o Cerro do Castelo. O vale e as duas estações formam a terceira cintura.

Actualmente, as ribeiras apresentam um caudal muito reduzido, as indústrias fecharam e o comboio passa indiferente. A primeira cintura corresponde a uma área isenta de construção, onde os sinais do passado se confundem com a natureza, persistindo apenas restos de muros intemporais que esboçam uma espécie de muralha no topo do monte; e um ferida aberta na encosta virada a nascente, resultante das escavações arqueológicas dos anos 80, que parece clamar pelo desfecho: o retorno do depósito votivo a Garvão.  

A segunda cintura, que se inicia a meia altura da encosta histórica, mantém uma urbanização composta por casas e quintais separados por ruas estreitas e irregulares. Lugar ainda do poder político/administrativo e religioso: a sede da Junta de Freguesia, a Casa Mortuária, a Igreja Matriz de Garvão e o intermitente posto da GNR.

Na terceira cintura,  a este da ribeira de Garvão, as ruas, relativamente largas e geometricamente organizadas em torno dos dois largos, Palmeira e Amoreira, são o fio condutor das habitações que se espraiam pelo vale, preenchendo-o. Os quintais frescos deixam escapar o verde das árvores, numa espécie de continuum ecológico, visível do alto do Cerro do Castelo. Dali avista-se também a Sardôa, uma rua que aponta ao nascer do sol e guarda na memória os seus habitantes de pé descalço. A Sardôa, com 1km de comprimento, alarga-se lá adiante, para dar espaço ao bairro social, ao campo de futebol, à praça de toiros e à feira de Garvão.

A vila asfixia, com o desaparecimento da sua indústria à cerca de quatro décadas. As fábricas de moagem e de cortiça transferiram-se, respectivamente, para Alhandra e Montijo. Levaram as pessoas. As indústrias artesanais fecharam portas. A estação de Garvão encerrou. A estação da Funcheira acompanha o declínio dos caminhos-de-ferro, mas tem a particularidade de ser paragem obrigatória, por motivos técnicos, do inter-cidades.

A actividade industrial regressou recentemente a Garvão com a instalação de uma fábrica de transformação artesanal de porco alentejano, localizada na continuidade da rua da Sardôa, junto à estrada nacional. Uma quarta cintura, recente e ainda pouco consequente, parece querer crescer, em várias línguas, também junto à estrada. Um sinal?

A história de Garvão demonstra a importância das vias de comunicação e do reconhecimento político no desenvolvimento económico das pequenas localidades rurais. O primeiro foral deu identidade à terra. O foral manuelino permitiu, durante vários séculos, a actualização da vila, com lugar próprio e a par do desenvolvimento do resto de Portugal. O caminho-de-ferro foi uma inestimável mais-valia que possibilitou a instalação da indústria, um input económico que veio incrementar substancialmente a população de Garvão durante a primeira metade do século XX. A existência de serviços comerciais e sociais completaram a condição de sustentabilidade na vila de Garvão.

Tiremos a lição!

Fernanda Cunha/Agosto2011

(Artigo publicado no jornal Costa a Costa, Edição 72, de 14 de Setembro de 2011)