desenho de Marta Madureira
As palavras andam arredadas da nossa paisagem actual. A crise da esfera política deve-se, sobretudo e em primeiro lugar, à ausência de palavra (enquanto comunicação), ao domínio das esferas pré-politicas da economia e da burocracia sobre o político, e, também, ao esvaziamento do espaço público enquanto espaço de pluralidade, em consequência da substituição da acção de cidadania pelo comportamento, que normaliza as formas de relacionamento entre os homens, tornando-os indistintos e eliminando a possibilidade do novo. Sem um mundo comum não é possível a troca de opiniões, a forma possível da participação activa dos homens nos assuntos políticos. Tudo passa a ter apenas uma única perspectiva, a do governante.
Vivemos, actualmente, uma espécie de democracia que impõe a sua vontade perante o povo em nome da
segurança e da economia, lembrando os antigos chefes de família, que agem
despoticamente, de forma apolítica, vedando a liberdade daqueles que se
encontram sob a sua hierarquia. Em consequência, vivemos tempos que são de
silêncios e camuflagens, de discursos sem palavra, que nada revelam, de
exortações morais que nada acrescentam ou de trivialidades sem sentido. A estes
tempos se seguirão outros: de desordem e de fome, de injustiça e de desespero.
A sociedade de massas é o último estágio do processo
evolutivo das sociedades, e corresponde à absorção dos vários grupos sociais
por um só, a própria sociedade no seu todo. É a esta igualdade indistinta que
aspira a sociedade de massas, uma igualdade radicalmente diferente da que
existia na esfera pública plural da antiguidade. A política economicista, que
encontra na sociedade o locus perfeito, nasce da premissa de que os homens se
comportam em vez de agirem. Neste contexto, o que importa são os dados
estatísticos que quantificam os comportamentos e determinam a política
representativa. Vivemos uma paradoxal sociedade de individualismos, onde a
singularidade própria de cada homem foi remetida para a intimidade, por
tratar-se de assuntos privados de cada um.
Uma das consequências da emergência da sociedade de massas é
a decadência da esfera pública. Com a ausência da acção e do discurso, banidas
para a esfera da intimidade, e o conformismo característico da sociedade de
massas, o mundo comum desaparece. Vivemos em democracia mas alienados da política. Esta
alienação permitiu que governos invisíveis assumissem o comando, refugiados em
números e burocracia.
A política caiu sobre o jugo da necessidade imposta pela vida económica e social, e perdeu a capacidade de ser livre. O compromisso político perdeu o valor e a esperança começa a apagar-se. O próprio discurso político tem vindo a esquecer o valor das palavras. E com elas, a capacidade de compromisso e a esperança, valores fundamentais em política.
Se queremos recuperar o mundo temos que fazê-lo a partir da
acção, a única actividade que reconcilia, que une. Recuperar a autenticidade da
acção implica resgatar a esfera pública e política das esferas económica,
religiosa, social e cultural, por onde anda perdida. Resgatar o espaço público, Mas para que a nossa intervenção tenha conteúdo,
para que possamos exigir qualidade na política há que fazer algum trabalho de
casa, na intimidade. O primeiro passo poderá ser a leitura (o próprio
vazio da actualidade impele-nos a ler). A literatura e a filosofia devolvem a
palavra, alimentam a pluralidade e podem tornar mais exigente a prestação política.
Hannah Arendt reafirma a importância das palavras na
reabilitação do lugar político. Filósofa judia alemã, viveu os tempos sombrios
do séc. XX, como foram os regimes totalitários de Staline e de Hitler, os
campos de concentração, as guerras mundiais, as ditaduras do sul da Europa. As
catástrofes políticas e as calamidades morais e, em contraponto, as revoluções,
constituíram o ponto de partida para a reflexão de Arendt, pensadora de temas
como a violência, a autoridade e o poder. Celebremos o seu aniversário (14 de
Outubro) partilhando o seu pensamento. Este texto é um convite à leitura de Hannah Arendt, cuja actualidade é confirmada pelos tempos conturbados que vivemos.
“Não estou de modo
algum segura ou certa da minha esperança, mas estou convencida de que, tão
importante quanto confrontar impiedosamente todos os desesperos intrínsecos do
presente, é apresentar todas as esperanças inerentes a ele” Hannah Arendt em A
condição humana (1958).
FC/14out2014