segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O julgamento que importa











A propósito de Sócrates (do grego) e de julgamentos (na antiga Grécia), há quem diga (Hannah Arendt) que já houve um tempo em que a liberdade coincidiu com a política. Era o tempo de Sócrates (o grego), ele próprio expressão dessa liberdade política. Pensar e agir, agir e pensar. Ambos com a mesma expressão, a mesma força, a mesma importância.
A principal consequência do julgamento de Sócrates (o grego) foi a separação do pensar e do agir, a separação entre a liberdade e a política. Os filósofos excluíram-se da esfera política, Fundada a filosofia política, com Platão, a liberdade passou a ser apenas teoria e a política uma prática mediada pela necessidade. E em política, a necessidade (economia) está sempre associada à violência, à imposição.
A política moderna é totalmente refém da necessidade (da economia), portanto, violenta. Quando a este fenómeno se associa a total ausência de sentido público, temos a actualidade. A triste actualidade. Sem sentidos, sem sentido, sem senso comum, sem povo. Uma actualidade bruta!
Compreender os meandros do julgamento de Sócrates (o grego) faz-nos compreender melhor o sentido do ser político e a fragilidade das instituições.
As instituições (tudo o que se institui) são o garante da liberdade (ou da sua ausência) e, portanto, da democracia (ou da ditadura). Foram criadas pelos homens para estabelecer aquilo que os une e, simultaneamente, aquilo que os separa. Refiro-me ao espaço público e político, naturalmente. Na actual democracia portuguesa está instituída a separação de poderes, incluindo o da comunicação social. Quando esta regra falha, não há julgamento que consiga ser justo (no sentido do melhor juízo). 
Talvez o julgamento de Sócrates (o português) nos venha demonstrar, pelo absurdo, o primado da forma sobre o conteúdo. E nos venha lembrar a importância dos princípios e dos valores colectivos, os antigos ensinamentos de Sócrates (o grego).

Nota para os mais distraídos: não estou a comparar os dois Sócrates nem estou a absolver o último. Estou apenas a falar da teoria que deveria estar na base de qualquer prática.

FC/24Nov2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Profundamente actual


 

“… there is apparently in the human mind itself one element capable of compelling the other and thus creating power ” - palavras de Arendt na voz de Godard (1997).


É possível descobrir um mundo comum entre Arendt e Jean-Luc Godard. Quero aproveitar esta oportunidade para relembrar o filme Notre Musique (Godard, 2004), a partir do qual é possível estabelecer um diálogo entre os juízos estéticos de Godard e a racionalidade de Arendt. O filme traz-nos uma pluralidade de personagens, de idiomas e de discursos, num cenário de reconstrução de uma ponte que pretende anular a ruptura entre o passado e o futuro, e confirma a actualidade do pensamento de Arendt. O cineasta apresenta-nos uma cidade em reconstrução, um cenário do pós-guerra a partir da qual se espreita o caos do mundo, convocando o conflito israelo-palestino e o racismo como fenómeno de exclusão, e contrapõe uma nova ordem por via do perdão, não tanto no plano moral mas sim, e principalmente, no plano político. Godard inclui no filme uma aula sobre a racionalidade instrumental contida na arte cinematográfica, através da qual nos revela a forma como ele próprio interpretou os fenómenos do mundo. Um filme que não procura a verdade absoluta, antes pelo contrário, induz o espectador a formular os seus próprios juízos a partir das verdades factuais, que vão surgindo no ecrã, e da habilidade persuasiva do cineasta, patente na globalidade do filme. Profundamente actual.


FC16Out2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Celebrar a importância das palavras, com Hannah Arendt






















desenho de Marta Madureira


As palavras andam arredadas da nossa paisagem actual. A crise da esfera política deve-se, sobretudo e em primeiro lugar, à ausência de palavra (enquanto comunicação), ao domínio das esferas pré-politicas da economia e da burocracia sobre o político, e, também, ao esvaziamento do espaço público enquanto espaço de pluralidade, em consequência da substituição da acção de cidadania pelo comportamento, que normaliza as formas de relacionamento entre os homens, tornando-os indistintos e eliminando a possibilidade do novo. Sem um mundo comum não é possível a troca de opiniões, a forma possível da participação activa dos homens nos assuntos políticos. Tudo passa a ter apenas uma única perspectiva, a do governante.

Vivemos, actualmente, uma espécie de democracia que impõe a sua vontade perante o povo em nome da segurança e da economia, lembrando os antigos chefes de família, que agem despoticamente, de forma apolítica, vedando a liberdade daqueles que se encontram sob a sua hierarquia. Em consequência, vivemos tempos que são de silêncios e camuflagens, de discursos sem palavra, que nada revelam, de exortações morais que nada acrescentam ou de trivialidades sem sentido. A estes tempos se seguirão outros: de desordem e de fome, de injustiça e de desespero. 

A sociedade de massas é o último estágio do processo evolutivo das sociedades, e corresponde à absorção dos vários grupos sociais por um só, a própria sociedade no seu todo. É a esta igualdade indistinta que aspira a sociedade de massas, uma igualdade radicalmente diferente da que existia na esfera pública plural da antiguidade. A política economicista, que encontra na sociedade o locus perfeito, nasce da premissa de que os homens se comportam em vez de agirem. Neste contexto, o que importa são os dados estatísticos que quantificam os comportamentos e determinam a política representativa. Vivemos uma paradoxal sociedade de individualismos, onde a singularidade própria de cada homem foi remetida para a intimidade, por tratar-se de assuntos privados de cada um.

Uma das consequências da emergência da sociedade de massas é a decadência da esfera pública. Com a ausência da acção e do discurso, banidas para a esfera da intimidade, e o conformismo característico da sociedade de massas, o mundo comum desaparece. Vivemos em democracia mas alienados da política. Esta alienação permitiu que governos invisíveis assumissem o comando, refugiados em números e burocracia. 

A política caiu sobre o jugo da necessidade imposta pela vida económica e social, e perdeu a capacidade de ser livre. O compromisso político perdeu o valor e a esperança começa a apagar-se. O próprio discurso político tem vindo a esquecer o valor das palavras. E com elas, a capacidade de compromisso e a esperança, valores fundamentais em política. 

Se queremos recuperar o mundo temos que fazê-lo a partir da acção, a única actividade que reconcilia, que une. Recuperar a autenticidade da acção implica resgatar a esfera pública e política das esferas económica, religiosa, social e cultural, por onde anda perdida. Resgatar o espaço público, Mas para que a nossa intervenção tenha conteúdo, para que possamos exigir qualidade na política há que fazer algum trabalho de casa, na intimidade. O primeiro passo poderá ser a leitura (o próprio vazio da actualidade impele-nos a ler). A literatura e a filosofia devolvem a palavra, alimentam a pluralidade e podem tornar mais exigente a prestação política.

Hannah Arendt reafirma a importância das palavras na reabilitação do lugar político. Filósofa judia alemã, viveu os tempos sombrios do séc. XX, como foram os regimes totalitários de Staline e de Hitler, os campos de concentração, as guerras mundiais, as ditaduras do sul da Europa. As catástrofes políticas e as calamidades morais e, em contraponto, as revoluções, constituíram o ponto de partida para a reflexão de Arendt, pensadora de temas como a violência, a autoridade e o poder. Celebremos o seu aniversário (14 de Outubro) partilhando o seu pensamento. Este texto é um convite à leitura de Hannah Arendt, cuja actualidade é confirmada pelos tempos conturbados que vivemos.  

 “Não estou de modo algum segura ou certa da minha esperança, mas estou convencida de que, tão importante quanto confrontar impiedosamente todos os desesperos intrínsecos do presente, é apresentar todas as esperanças inerentes a ele” Hannah Arendt em A condição humana (1958).


FC/14out2014


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O sucesso da “deslinguagem”


























A propósito de uma certa degradação da linguagem e da cultura, comentada com muita pertinência por Mário De Carvalho, por ocasião da entrega do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2013, acrescento-lhe um “ponto”. Há umas semanas atrás, dirigi uma carta, cuidadosamente escrita, à directora de uma certa entidade pública. A carta, merecedora de todos os meus cuidados, reflectia sobre a arte, levada à prática pela entidade em causa, e apelava à justa consideração de um caso particular. A resposta, pouco ponderada por urgente e estranha necessidade de encerrar o caso levantado, chegou dois dias depois, em formato ofício. Nos poucos parágrafos, descuidados e intencionalmente falseados, lia-se a ordem de fim de estágio, vinda “de cima”. O certificado do estagiário, repentinamente eliminado, foi emitido dias mais tarde. Continha uma informação mínima, mais que mínima, redigida num só parágrafo (como é costume nestes modelos), mas sem as vírgulas obrigatórias e sem a qualidade que o timbre do próprio certificado merece.

O sucesso da deslinguagem (neologismo que se impõe) e a sua correspondente limitação (ou desonestidade) intelectual, são crescentes nas actuais esferas política e social. A nulidade de conteúdo, de que enfermam estes fenómenos, esconde uma perigosa e eficaz discricionariedade, um perigoso e perverso poder. Sem mesura nem lisura, é fácil, muito fácil, ficarmos reduzidos (alguns nem isso) à “liberdade de pátio”, título do segundo conto do livro de Mário de Carvalho, cuja capa vem bastante a propósito. 



FC/março/2014






O fascínio do cavaleiro





























Sobre a verdade e a mentira muita coisa se poderá dizer. 
Tanto a verdade como a mentira são existências, evidências, insistências, aparências. 
Mentiras verdadeiras ou verdades mentirosas. Não interessa. 

Tudo existe, em estado puro ou nem por isso. 
Tudo é possível ficcionar, afirmar, jogar. 
Entre os homens é assim. 
Cada um fará a destrinça, segundo a sua bondade de carácter.

Ao cavaleiro, porém, não está autorizada a mentira. 

Simplesmente porque o cavalo não permite fingimentos. 
Quem não conseguir ser verdadeiro não poderá atingir a perfeição.

É nessa verdade que reside o fascínio do cavaleiro. 
Quem dera que assim fosse com tudo o resto. Talvez seja...

FC/28mar/2014